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O dia em que bati um Jaguar em Interlagos

Perdi a traseira do XF no final da reta dos boxes, o carro bateu no muro e o airbag disparou – tudo em “câmera lenta”

Na noite da última quarta, dia 28, senti um mau jeito nas costas. Às 9h do dia seguinte, no entanto, tinha um compromisso no autódromo de Interlagos: conferir o lançamento do Jaguar F-Type Coupé, apresentado à imprensa no primeiro dia do Fast Drive Jaguar Land Rover 2014, evento que reúne por quatro dias convidados e clientes em potencial para uma série de experiências com as marcas. Na manhã de quinta-feira, dia 29, cheguei a enviar um torpedo ao pessoal da assessoria da Jaguar, avisando de que estava com muita dor, mas que tentaria ir, ainda que atrasasse.

Fui, ainda sem saber que me tornaria o assunto do evento. Cheguei em tempo de pegar a apresentação e o briefing. Hora de ir para a pista. A atração do dia seria o F-Type Coupé V8, mas minha volta estava agendada para as 16h12. Jornalistas de fora de São Paulo andariam antes, pois tinham voos para pegar. Enquanto isso poderíamos nos divertir com outros modelos à disposição. Como teria quase o dia inteiro, resolvi dar uma volta no Jaguar XF, justamente por não ser dos mais concorridos para test-drive. Cada jornalista tinha direito a duas voltas na pista, toda marcada por cones – vermelhos para frear, brancos para iniciar a tomada de curva e azuis para tangenciá-las. Mais claro, impossível. A meu lado, iria um instrutor.

Já perdi a conta de quantas vezes andei em Interlagos, com os mais diferentes modelos. Cheguei a comentar com o instrutor que, com a parafernália eletrônica de um carro como aquele, era quase impossível que ocorresse qualquer imprevisto. Corria tudo bem, até o momento de abrir a segunda volta. Ao iniciar a freada pouco antes do final da reta dos boxes, o XF simplesmente escapou de traseira e rodou.

O Jaguar XF logo após a batida em Interlagos

Agora vou contar o que muitos me perguntam, que são as sensações em um acidente como esse: não, nesse momento não se lembram de muitos detalhes. Pela cabeça passa algo na linha “Como isso está acontecendo?”. Simplesmente viramos passageiros no carro, que na hora parecia (acredite!) rodar em câmera lenta. Deu até tempo de pensar desde um “Vai bater, só resta saber como” até um “Ah, talvez só rode e não bata!”. Mas bateu. Bateu de frente, no muro que separa a pista do pit lane. Não chapado, bateu girando, a ponto de o carro ir parar no início do “S” do Senna. Com desaceleração suficiente para abrir os airbags.

Segue então o testemunhal que nem todo jornalista automotivo pode dar: sim, o airbag é fundamental, muito embora eu ache que não iria bater a cabeça no volante pelo fato de a batida não ter sido em linha reta. Saí sem um único arranhão sequer. Apenas queimaduras leves nas mãos provocadas pelo gás do airbag. Aliás, de longe algumas pessoas viram muita fumaça. Minha primeira reação depois de bater foi abrir os vidros para deixar a fumaça sair. A segunda foi perguntar ao instrutor se estava tudo bem com ele e tentar ligar o carro. Não ligava. Melhor assim. Saí do carro e fiz algumas fotos. Nunca tinha batido e aberto um airbag. Precisava registrar o momento. Saco o celular e já há ligações não atendidas e mensagens no Whatsapp perguntando se eu não havia me machucado. Que povo rápido! Nos minutos que seguiram após a pancada, até minha dor nas costas sumiu. Só voltou horas mais tarde, quando a adrenalina baixou.

Claro que nessa hora um misto de constrangimento e vergonha toma conta de você. Mas veja bem: eu não havia feito nenhum movimento brusco ou imprudente que a meu ver provocasse essa perda de controle. Não era a primeira vez que passava pela reta dos boxes para frear e contornar o “S” do Senna. Só que havia uma conjunção de condições desfavoráveis: os pneus ainda estavam frios, o asfalto estava um sabão (comprovei isso ao sair do carro para voltar a pé para os boxes) e depois me disseram que provavelmente haveria até óleo na pista. Difícil saber agora. Importante é que depois o sol abriu, a pista secou e a aderência ficou muito melhor.

Todo o pessoal da Jaguar foi show ao entender que na profissão estamos sujeitos a acidentes desse tipo – o dia todo ouvi variações de “Isso acontece”, “Estamos em um autódromo” e “Importante é você estar bem”, o que é (mesmo) reconfortante. Se isso não fosse uma verdade, nenhum evento automobilístico teria ambulância e equipe de resgate. Sim, apesar do ocorrido, estávamos em um carro muito seguro e em um ambiente controlado, que não permitia a nenhum outro veículo se envolver no acidente.

Insinuações? Brincadeiras? Gozações? Claro que ouvi e vou continuar ouvindo. Obviamente não desejo mal a ninguém, mas acho que nesse ponto todos têm telhado de vidro – qualquer um de nós está sujeito a um acidente do gênero. Portanto é no mínimo saudável pensar duas vezes antes de condenar alguém. Ah, só mais um detalhe. O carro bateu, o airbag abriu e nem havia parado de rodar e a primeira imagem que veio à minha cabeça nessa hora foi a da pequena Júlia. Minutos depois, ela ligava no meu celular e perguntava: “Você se machucou, papai?”.

Publicado originariamente no informativo Jornalistas&Cia. Imprensa Automotiva

Por: Luís Perez às 13h05

Sobre o autor

Luís Perez é jornalista formado pela PUC-SP. Estudou também história na USP e marketing na ESPM. Trabalhou por 13 anos no jornal Folha de S.Paulo, onde exerceu diversas funções, nos últimos tempos a de editor de Veículos. Colabora com diversos veículos de imprensa, como revistas Quatro Rodas, Car and Driver e Jornauto, além do jornal Agora SP. É colunista do Jornalistas&Cia Imprensa Automotiva, dirigido a 1.200 profissionais do setor. Lançou e editou o jornal Prime Autos, primeiro veículo gratuito especializado em automóveis, e foi editor-executivo da revista Avião Revue, da Motorpress Brasil Editora. Criou, dirige e edita o site Carpress desde 2006 e o site Mazarine desde 2013.

Sobre o blog

Este blog se propõe a trazer ao leitor informações rápidas e, sempre que possível, exclusivas a respeito do mundo motorizado. Vale lembrar que, mais do que produto e economia, o tema automóveis mexe com questões de fundo social, cultural, emocional e interfere de forma decisiva em nosso cotidiano.

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